A logística por trás da construção da Basílica da Sagrada Família em Barcelona

07 jan 2026
A Sagrada Família em Barcelona combina tradição e inovação constante

ANÁLISE APROFUNDADA

Localizada no coração de Barcelona, a Sagrada Família não é apenas uma das obras-primas de Antoni Gaudí, mas também um desafio monumental de construção e logística. A compreensão única deste brilhante criador do cristianismo, da natureza, da geometria e do mundo em geral deu origem a um projeto tão complexo quanto inovador, que levou engenheiros, arquitetos e artesãos de diferentes gerações a reinventar técnicas de construção e processos logísticos.

A logística por trás da Sagrada Família é altamente sofisticada: ela foi construída em um dos bairros mais densamente povoados de Barcelona, recebe mais de quatro milhões de visitantes por ano e, em simultâneo, mantém sua função de igreja ativa. "Para equilibrar a vida no bairro, o fluxo de turistas e a atividade religiosa com as obras, setorizamos a área de intervenção", explica David Puig, arquiteto adjunto. A basílica está organizada de forma que as áreas em construção sejam delimitadas, as rotas dos fiéis, paroquianos e trabalhadores não se cruzem e as obras que coincidem no mesmo espaço sejam planejadas em horários que não interfiram com o culto ou a presença do público. "Muitas etapas são realizadas na oficina, fora do recinto. Além disso, seguimos a legislação vigente e os horários estabelecidos pela licença municipal para minimizar os transtornos aos vizinhos", acrescenta.

A logística por trás de um templo vivo que equilibra construção, turismo e atividade religiosa

Mais de 140 anos em construção

Desde que a primeira pedra foi colocada em 1882, a Sagrada Família passou por constantes transformações. O que começou sob a direção de Francisco de Paula del Villar foi reinterpretado um ano depois por Antoni Gaudí, que moldou um projeto radicalmente diferente, destinado a se tornar um símbolo de Barcelona e Patrimônio da Humanidade. Desde então, sua construção, e a complexa logística que a sustenta, não parou de a evoluir.

“As tecnologias revolucionaram nossos processos, em muitos casos materializando ideias que Gaudí já havia intuído ou iniciado”, observa Puig. Um dos traços mais característicos de seu método é que as geometrias interiores evocam formas da natureza: construídas com linhas retas, são dispostas de forma a gerar o efeito visual de colunas e paredes onduladas. “Para modelar um projeto geométrico tão elaborado, plantas bidimensionais não eram suficientes para Gaudí: ele precisava trabalhar em três, utilizando modelos físicos de gesso.” Hoje, a modelagem digital utilizando programas CAD e BIM simplificou o design e a execução do projeto.

Desde praticamente seus inícios, a logística da Sagrada Família equilibra a construção, o culto e a visita de milhões de pessoas

Gaudí iniciou a Sagrada Família com a cripta e a abside utilizando métodos tradicionais: pequenas pedras e ajustes manuais feitos por pedreiros. No entanto, na fase final da obra, dedicada à fachada do Nascimento, introduziu materiais inovadores para a época, como o concreto nas partes superiores, e recorreu a elementos pré-fabricados. "Atualmente, seguimos essa mesma lógica, pré-fabricando e montando o máximo de peças possível para simplificar o trabalho em altura", afirma o arquiteto adjunto. Quando concluída, a basílica terá 11 metros de altura a mais que a igreja matriz de Ulm, na Alemanha, que atualmente detém o recorde mundial de altura, com 161 metros.

Peças pré-fabricadas são montadas em oficinas antes de chegar à basílica de Barcelona

Fornecimento de materiais

Gaudí inicialmente recorreu ao arenito da montanha de Montjuïc, em Barcelona. Altamente valorizada pelos arquitetos, esta rocha se distingue por sua resistência superior a outras rochas sedimentares e pela variedade em suas tonalidades, que vão do cinza-claro, cinza-esverdeado, bege, amarelo, ocre, dourado e roxo ao avermelhado.

No entanto, quando a fachada da Paixão começou a ser construída, a escassez de pedras de Montjuïc tornou-se evidente e, pouco tempo depois, as operações de extração foram interrompidas abrupta e permanentemente. "Não encontramos nenhuma rocha que combinasse a mesma variedade cromática, então usamos outras com características semelhantes de diferentes países, como Alemanha, França e o Reino Unido", confirma Puig.

Uma logística internacional abastece à Sagrada Família com pedras de países como Alemanha, França ou Reino Unido

A magnitude do projeto, aliada à limitação de espaço no terreno, cada vez mais ocupado pela própria construção, e ao fluxo constante de pessoas, levou a Junta Constructora a implementar um sistema logístico próprio. A solução foi transferir grande parte dos trabalhos para fora da obra: os elementos são pré-fabricados em oficinas externas e apenas transportados para a basílica para a montagem final. Foi o que aconteceu, por exemplo, com peças singulares como a estrela da torre da Virgem Maria ou a cruz que coroará a torre de Jesus Cristo, elaboradas em instalações especializadas antes de serem transportadas e montadas em Barcelona.

A logística da Sagrada Família é organizada em diferentes fases:

  • Chegada de matérias-primas. As oficinas recebem matérias-primas, como pedras, e as classificam para posterior transformação.
  • Processo de fabricação. Especialistas criam os componentes seguindo as diretrizes dos arquitetos.
  • De peças individuais a grandes módulos. Os elementos fabricados são montados para formar unidades maiores.
  • Instalação no templo. Por fim, os módulos concluídos são movidos para a basílica, onde são colocados em sua posição final.

Equipe humana por trás da Sagrada Família

A complexa logística da Sagrada Família também tem um forte componente humano: por trás do fornecimento de materiais e tecnologia, uma rede de pessoas articula tudo. "Temos cerca de 100 profissionais dedicados a três áreas principais: projeto arquitetônico, construção e gerenciamento do templo, sendo complementadas por colaborações com empresas externas", indica Puig.

A equipe de projeto arquitetônico é responsável por desenvolver e manter viva a visão de Gaudí: interpretar seu projeto, adaptá-lo à época e manter a consistência. Essa equipe principal conta com empresas de engenharia externas para questões altamente especializadas, como cálculos estruturais.

Grande parte das peças da Sagrada Família são fabricadas em oficinas externas e chegam prontas para serem montadas na basílica

No setor da construção, o departamento interno garante que tudo seja executado segundo a documentação técnica. Uma de suas principais funções é gerar a infraestrutura básica, ou seja, preparar a logística e a organização que permitem que as construtoras externas executem suas tarefas com segurança e de forma coordenada e, posteriormente, contratar e coordenar as construtoras responsáveis por partes específicas do projeto.

Por fim, na área de gerenciamento tudo o que diz respeito ao funcionamento da basílica é tratado: desde o culto e as visitas culturais até a comunicação e atenção às experiências dos milhões de pessoas que a visitam a cada ano.

Logística complexa na construção da Sagrada Família em pleno centro urbano

Construir, conservar e restaurar: a logística de um templo vivo

A Sagrada Família está entrando em sua etapa final. "Está bem avançada", declara o arquiteto adjunto. Durante anos, 2026 foi designado como a data simbólica de conclusão, coincidindo com o centenário da morte de Gaudí, mas a pandemia forçou uma revisão dos prazos, e esse horizonte mudou ainda mais.

Ao longo de quase um século e meio, vários fatores prolongaram o projeto. A complexidade do projeto de Gaudí impôs desafios técnicos sem precedentes, e a morte repentina do arquiteto deixou o projeto sem sua principal força motriz. Somou-se a isso a Guerra Civil, que danificou parte do edifício e destruiu plantas e modelos originais, exigindo a reconstrução e o estudo do legado do gênio modernista.

Uma logística minuciosa faz possível que a Sagrada Família se construa, conserve e restaure ao mesmo tempo

O financiamento foi outro fator decisivo: desde a sua criação, o templo da expiação foi construído com doações privadas e contribuições de milhões de visitantes. Isso significa que todas as crises econômicas e, mais recentemente, o declínio do turismo durante a COVID-19, resultaram em paralisações e atrasos.

"Além do que ainda está pendente, trabalhos de manutenção, restauração e conservação estão sendo realizados em paralelo", conclui Puig. Hoje, a Sagrada Família é um projeto inacabado e, em simultâneo, um edifício em constante atividade: está sendo construída, conservada e restaurada simultaneamente. E, por trás de tudo isso, uma máquina logística que tem sido capaz de sustentar um projeto que transcende gerações.

 

 

David Puig, arquiteto adjunto da Sagrada Família

 

DAVID PUIG

| Arquiteto adjunto da Sagrada Família

A complexidade da Sagrada Família é melhor compreendida por aqueles que a vivenciam no dia a dia. David Puig, arquiteto adjunto, explica em primeira mão os desafios logísticos e de construção da continuidade da obra de Gaudí.

 

Qual parte do projeto foi a mais desafiadora de executar até agora?

As seis torres centrais: a dos quatro evangelistas (Mateus, Marcos, Lucas e João), a da Virgem Maria e a de Jesus Cristo, que será a mais alta. Essas torres se erguem acima do transepto e da abside da basílica e não repousam diretamente no solo, mas sim nas colunas internas, chamadas de "árvores estruturais". No transepto, essas colunas repousam sobre fundações profundas de concreto armado. Na abside, porém, elas repousam sobre a cripta, declarada Patrimônio Mundial da UNESCO. Como a torre da Virgem não foi planejada para aquela área na época, as colunas originais não foram projetadas para suportar uma carga tão pesada.

Como essa dificuldade foi superada?

Embora as fundações pudessem ser reforçadas, não foi possível reforçar as colunas sem danificar seriamente a estrutura original. Para evitar isso, foi desenvolvido um novo sistema estrutural de "pedra tensionada" sem o uso de concreto. Esse processo inovador levou quase três anos de trabalho, desde a concepção inicial até a criação e validação do protótipo. Graças a essa solução, foi possível projetar uma estrutura mais leve e resistente, capaz de suportar a carga sem exceder a capacidade das colunas localizadas na cripta.

Como as instalações podem ser atualizadas sem comprometer o projeto original de Gaudí?

Este é um dos aspectos mais delicados do projeto. Analisamos a essência da Sagrada Família. Gaudí definiu o traçado geral, o simbolismo e muitas soluções geométricas e estruturais. A partir dessa base, podemos introduzir ajustes que nos permitam cumprir as normas atuais sem alterar seu espírito. Os requisitos são muito mais rigorosos agora do que no século XIX, mas, graças à tecnologia, temos ferramentas que nos permitem resolver problemas que seriam intransponíveis naquela época.

Quais tecnologias modernas são utilizadas para continuar um trabalho iniciado no século XIX?

Hoje, o projeto se baseia em modelagem 3D, que, de certa forma, dá continuidade aos modelos físicos com os quais Gaudí trabalhava. Embora tenhamos ferramentas digitais como renders, realidade virtual e impressão 3D, as maquetes continuam essenciais. A diferença é que agora são impressos em vez de modelados à mão. A modelagem digital não só agiliza a fase de projeto, como também possibilita a fabricação precisa de muitos dos elementos do templo através de processos de corte automatizados (CAD-CAM). Cada pedra, peça de metal ou molde pode ser produzido com precisão antes de ser colocado na obra.

Em uma basílica com tanta presença de avanços técnicos, quais tarefas ainda exigem habilidade artesanal?

Principalmente, tudo relacionado aos acabamentos. As pedras, por exemplo, são moldadas e cortadas por controle numérico, mas suas texturas finais, aquelas que conferem expressividade à construção, são realizadas por pedreiros. O mesmo vale para os elementos de ferro forjado e os vitrais, trabalho que ainda depende de ofícios cada vez mais difíceis de encontrar. No caso das esculturas, essenciais para transmitir o simbolismo e a expressividade do templo, grande parte da elaboração continua sendo feita manualmente. E não apenas no que resta a ser construído: na restauração das partes originais, também são envolvidos especialistas que aplicam técnicas tradicionais.

Que medidas estão sendo implementadas para melhorar a sustentabilidade e a eficiência energética da Sagrada Família?

É um projeto único, pois abrange épocas muito diferentes, e a sustentabilidade não fazia parte do projeto original. No entanto, em cada nova fase, tentamos incorporar critérios atuais. Um exemplo é a Capela da Assunção, onde estamos aplicando sistemas de isolamento que permitem reduzir o consumo de energia térmica sem alterar a imagem concebida por Gaudí. No interior, adotamos soluções eficientes, como iluminação LED e outros dispositivos de baixo consumo. Em suma, sempre que o projeto permite, integramos princípios de sustentabilidade para adaptar o templo às necessidades do presente.